quarta-feira, 25 de março de 2009

Técnicas e contribuições de um psicólogo para o Aconselhamento Pastoral



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Escrito por MARCELO QUIRINO
23-Mar-2009

Image Pastor, você sabe ouvir e realizar um Aconselhamento Pastoral (AP) eficaz e eficiente? Sabe as técnicas que podem ser utilizadas no gabinete para isto? Suas ovelhas se sentem satisfeitas com seu AP ou você ainda depende de algum desenvolvimento para isto? Este pequeno ensaio apresenta alguns princípios básicos para esta importante tarefa do ministério pastoral.

Primeiro passo: saber ouvir

O ouvir é uma habilidade rara, ainda mais ouvir o outro integralmente e com empatia. Geralmente, quando se encontra alguém que aparentemente ouve pode-se ter na realidade alguém que apenas fica em silêncio enquanto o outro fala e que, seletivamente, presta atenção na fala imbuído de preconceitos e censuras ao outro.

Ouvir uma ovelha é saber que ali há um corpo que fala além das palavras pronunciadas. Ouvir uma ovelha é saber que há um outro diferente de nós e não apenas similar pelos valores cristãos. Ouvir uma ovelha é saber que, apesar de convertida, esta é uma pessoa com conflitos interiores típicos do ser humano.

É imprescindível saber que enquanto a ovelha fala os nossos pensamentos de censura e repreensão também falam. Não dê ouvidos a eles. Neste primeiro momento é necessário se ater apenas à fala da ovelha. Um outro ser que certamente falará com você neste momento é o Espírito Santo de Deus. Seu agir é imprevisível no sentido da direção que ele deseja dar para aquela pessoa.

Ofereça um clima de escuta sem censura, mas com empatia, liberdade de fala, aceitação total e interesse em entender. Escutar é uma ciência e possui princípios que devem ser seguidos para que haja eficiência e eficácia no processo de escuta do AP.

Ouça, ouça muito. Dê um feedback de que está ouvindo, compreendendo e entendendo independente de estar concordando ou não com as atitudes relatadas. Não ofereça um ambiente de censura e repreensão na primeira etapa da escuta.

Adote uma atenção flutuante, que é a capacidade de ouvir tudo sem selecionar, focar ou concentrar em partes da fala para análise paralela na mente enquanto se escuta o outro. Esta atenção flutuante é a capacidade de oferecer escuta a toda a fala sem se focar numa parte dela para análise ou reflexão. Às vezes o pastor ouve com seletividade e pensa ao mesmo tempo. Isto é prejudicial.

Os estudos de teorias sobre a personalidade e sobre a psicologia aumentam a capacidade de o conselheiro ouvir. Quanto mais conhecimento ele tiver sobre como é o funcionamento psicodinâmico do ser humano, maior será a capacidade de se ouvir na totalidade as inúmeras partes da psique: a fala consciente, a fala inconsciente, a fala dos sintomas e a fala do corpo.

Quando se entende que a mente é um misto de carne com espírito se entende que na ovelha coexiste uma força que a impele a fazer algo e, ao mesmo tempo, uma outra que a impede de fazer este algo. Como Paulo disse: “pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, este pratico” (Romanos 7.19).

Perguntas podem ser realizadas para a escuta se aprimorar. Porém, que sejam perguntas que esclareçam a fala da ovelha. Intervenções curtas para esclarecimentos não devem ser realizadas no momento em que a fala representa um desabafo ou uma catarse emocional - onde não deve acontecer interrupção de fluxo.

Para ouvir com empatia coloque-se no lugar da ovelha. Ela tem o direito de sentir raiva, impulsos violentos e agressivos. Afinal, Deus fez esta pessoa desta forma. O problema é o que este indivíduo faz com estes impulsos e como os controla. Por isto, demonstre uma escuta acolhedora e sem repreensão.

Não censure pensamentos pecaminosos de pronto. Aborde o tema com cuidado e pelas “beiradas”. Estes pensamentos pecaminosos podem ser resultado de um aprendizado de vida traumático na infância, um aprendizado emocional, um aprendizado oriundo dos pais e de como resolver problemas.

Aumente a capacidade de a ovelha olhar para si mesma - seus sentimentos, expressões e comportamentos. Além disso, ajude-a a demonstrar suas expressões, sentimentos e emoções. Por exemplo: “percebo que esta ansiedade atrapalha em muito sua capacidade de trabalhar de forma calma”, ou “noto que o fato de seu marido não te ouvir causa em você uma raiva muito grande que você não expressa”.

Espelhe e resuma a fala para mostrar que a entendeu e para checar se entendeu. Este resumo e espelhamento da fala da ovelha oferecem a possibilidade de demonstrar que ela está sendo acolhida e respeitada em sua individualidade pelo simples fato de estar sendo ouvida com atenção.

Bíblia e oração no aconselhamento

Após a escuta integral da problemática principal da ovelha ofereça questionamentos. Estes questionamentos permitem pensar sobre o momento que a pessoa que busca o aconselhamento está vivendo. Ao invés de oferecer o conselho indague sobre o melhor caminho com base na Bíblia. Estimule a pessoa a encontrar a própria solução para sua questão.

A oração pode ser realizada no meio do processo de AP, antes dos questionamentos e depois da fala inicial da ovelha. Orem e depois dêem prosseguimento ao processo. Muitas vezes uma oração durante o AP pode possibilitar ao Espírito o momento que ele precisa para, com a ajuda do pastor, realizar sua função (João 14.26).

O conselheiro também deve oferecer versículos e fatos bíblicos, mas deve respeitar a liberdade de escolha da pessoa aconselhada. Em casos mais graves é aceita uma atitude mais diretiva e aconselhadora. Em outros, o questionamento resguarda a individualidade e oferece a possibilidade de esclarecimentos e de reflexão, de tomada de consciência da própria vida.

Controle os impulsos de dar sermões e apresentar histórias e explanações bíblicas vagas neste momento, pois a ovelha quase sempre não ouvirá. Por isto, ajudar a pensar na sua angústia e a elaborar esta angústia biblicamente é o foco do aconselhamento.

Pregação x aconselhamento

Muitos APs são ineficazes porque os pastores confundem a função do púlpito com a do gabinete pastoral. A função do púlpito é a de expor uma verdade bíblica e a do gabinete é a de contrapor a angústia pessoal com a Bíblia.

A exposição da Bíblia não é um momento proibido, mas deve acontecer em momentos nos quais a capacidade de a ovelha ouvir foi restabelecida. O pastor deve estar sensível para isto. Há momentos em que a ovelha não ouve, só fala, pois o nível de angústia é grande.

Ofereça momentos de esclarecimento da fala da ovelha. Em alguns momentos a própria situação de vida da ovelha está confusa para ela. Faça perguntas como: “O que você acha que isto quer dizer?” ou “você pode pensar melhor nessa situação para buscar entender o que está acontecendo?”.

Muitas vezes a angústia vem da incapacidade de a ovelha entender o que acontece com ela, com seu corpo e com sua família. Estimular o esclarecimento é muito útil na medida em que coloca a ovelha para buscar o entendimento de sua problemática.

Sugestões e caminhos podem ser sugeridos, mas não impostos. Antes de oferecer uma sugestão estimule o esclarecimento da sua situação de vida. Apenas descrever o que acontece é uma boa técnica para pensar sobre a própria problemática.

A técnica de esclarecimento difere da de reflexão na medida em que aquela tem o intuito de descrever o que se passa nos detalhes, já a reflexão busca os porquês e os para ques. O uso das duas deve ser concomitante e, com a experiência de AP, se consegue discernir entre o momento de usar cada uma delas.

Já a técnica de confrontação tem o objetivo de corrigir a fala da ovelha e de trazer à consciência de forma mais clara algum comportamento inadequado e não-cristão. Por exemplo, a ovelha diz: “Eu apenas reajo às ignorâncias de meu marido” e o pastor pode dizer “vamos ser sinceros, você responde com ignorância também a ignorância dele, não é verdade?”.

Isto deve ser feito em momento certo, após o vínculo e a confiança entre os dois se estabeleceram. Oferecer confrontação logo de início sem ouvir os desabafos é um grave erro que compromete a capacidade de a ovelha falar. Junto desta técnica pode ser empregada a técnica do silêncio, que comunica à ovelha: “Pense nisto agora”.

A técnica do silêncio pode ser usada em diversos momentos, como no de confrontação e no momento em que a ovelha estiver precisando elaborar por si mesma a dor que sente. Em alguns momentos este silêncio do pastor em momentos de pranto pode demonstrar que a ovelha tem que aprender a lidar e a elaborar esta dor, pois nem sempre poderá contar com um braço para ajudá-la. Nos momentos de pranto, silêncio e palavras confortantes podem coexistir.

Enfim, o pastor não deve reduzir o AP à prática de conselhos, sugestões de decisões e à pregação de sermões. Entretanto, o ouvir e o apenas ouvir é uma técnica muito poderosa e importante. Em alguns momentos o ouvir deve ser praticado de forma integral.

O pastor deve saber discernir quando a ovelha quer uma sugestão bíblica e quando quer apenas desabafar e ser ajudado a pensar. Este ouvir não deve ser estéril. É um ouvir que visa oferecer a diminuição da angústia, que visa esclarecer questões espirituais da ovelha e que visa também a realização de encaminhamentos profissionais e sugestões bíblicas.

Ovelhas que tem um bom nível de amadurecimento (autonomia de decisões e autocontrole das emoções) apenas precisam desabafar e serem ajudados a pensar. Raramente elas precisam de conselhos diretos e frequentes. Outras ovelhas precisam de sugestões mais simples e diretas. Entretanto, deve-se ter consciência de que o fornecimento frequente de conselhos pode produzir um círculo vicioso que se torna fonte de dependência psicológica.

Limites do aconselhamento

A atividade de AP deve e pode se estender além da prática de aconselhamento, mas sempre se distanciando das práticas de Psicoterapia e Psicologia, que são funções por lei privativas de psicólogos.

Um bom princípio a se observar quanto a isto é não estender demais o numero de sessões de AP com uma ovelha e evitar escarafunchar traumas e relações primitivas com os pais na infância. Isto pode criar situações vexatórias para o pastor que não goza da chamada distancia epistêmica com a ovelha, pois convive com ela no dia a dia. Além disto, poderia desencadear problemas psicológicos e sociais maiores na ovelha.

Por isto é importante diferenciar Consulta Psicoterápica de AP. O aconselhamento deve ter um foco mais diretivo e no aqui-agora, não se detendo tanto nos porquês da infância e na aplicação de técnicas psicoterápicas. Vale lembrar que a Psicologia é prerrogativa de psicólogos e o desempenho irregular da função é crime. Na dúvida basta saber que atividade de AP se situa ao redor da escuta ativa e empática e do aconselhamento bíblico.

Para encerrar vale ressaltar a história que envolve um doutor e um estudante de medicina. O estudante pergunta: “Doutor se é tão simples retirar um apêndice, por que 7 anos numa faculdade para aprender medicina?” Na sua sabedoria e experiência o médico responde: “Filho, retirar um apêndice é fácil, posso te ensinar isto em 10 minutos. O que vai levar 7 anos é aprender o que fazer quando algo der errado”.

MARCELO QUIRINO

Psicólogo e membro da PIB do Guarani, em São João de Meriti (RJ)

Site do Autor: www.marceloquirino.com

quirino@ufrj.br


EXTRAÍDO DE: www.ojornalbatista.com.br

1 comentários:

Marcelo Quirino disse...

Olá, o site do autor é
www.marceloquirino.com